Delcy Canalles

 

ANDARILHA NOTÍVAGA


Eu fujo para os bares à procura da arte,
que lá se reparte de forma variada,
e faço desses lugares a minha outra morada!
Um a um, os boêmios vão chegando,
e os problemas lá fora vão deixando
num desejo honesto de esquecer.
E a gente se surpreende, de repente,
num mundo novo, estranho, diferente,
sem o tempo sentir, sem perceber!
Sempre há um violão e um cavaquinho
e solistas saudosos e chorinhos,
que tocam fundo nosso coração.
E um chocalho, às vezes, bem humilde,
improvisado na latinha triste,
traz alegria e muita vibração!
Alguns cantores de almas machucadas,
soltam suas vozes pelas madrugadas
tentando amenizar suas tristezas.
E ante a chegada sempre decantada,
da brisa refrescante da alvorada,
falam de amor, de sonhos e incertezas!
E há pessoas como eu, só nostalgia,
que extravasam a mágoa que as maltrata
ao declamar nas suas vãs poesias,
a dor que as fere, que espezinha e mata!
Assim, é dos artistas o destino,
que a solidão não ousam suportar,
que vivem em completo desatino
de mesa em mesa, ou de bar em bar!
É que os amigos que a noite oferece
são puros, como puras são as preces,
qual terapia a nos tranqüilizar.
Não há no rol das novas amizades
vãos preconceitos, falsas veleidades
diferenças de cor ou religião.
Há uma família, apenas, reunida,
cujos irmãos festejam com bebida,
o direito de serem o que são.
Eu fico em verdade emocionada,
minha tristeza foge encabulada,
e eu chego a rir num leve gargalhar.
É que vislumbro, meio deslumbrada,
que sou a solitária acompanhada
a ANDARILHA NOTÍVAGA do bar!

 

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