Delcy Canalles

 

MONÓLOGO DA DESINTEGRAÇÃO

 
Sempre disseste que és meu amigo
e que entendes, em toda a profundeza,
esta imensa tristeza,
que trago comigo...
Talvez, por isto, eu sinta, hoje,
esta necessidade estranha,
esta necessidade tamanha
de falar contigo,
de dialogar,
desabafar,
de explodir,
de chorar!
E é em meio a este desespero,
que eu quero,
que eu espero,
que eu imploro,
quase em choro,
que me ouças,
que compreendas,
que escutes
e que entendas
esta catarse sem peias,
que eu sinto correr nas veias,
buscando liberação,
para esta angústia incontida,
para esta tristeza sentida,
que oprime meu coração!
Tu, que estudaste o átomo,
em sua contextura,
elementos, dimensão,
ajuda-me a descobrir a essência
_qual estudioso da ciência _
do que é desintegração!
Não da matéria bruta, inanimada,
mas da matéria viva,
 
 
orgânica, humanizada!
Não podes me ajudar?
Eu já sabia!
Eu sentia! Eu temia! Eu previa!
É que as leis, que os cientistas formularam,
se aplicam à matéria inerte, fria!
Por isso, tens de calar!
Mas eu não. Eu quero falar!
Quero contar-te, agora, o meu exemplo,
como se eu me confessasse, a ti,
num grandioso e extraordinário templo,
onde serias tu, amigo, o confessor,
e eu, aquele que busca,
busca, em ti, um consolo pra dor!
Imagina um ser humano machucado pela vida,
arranhado pelo destino,
violentado em sua própria alma,
afastado da pessoa que mais ama,
privado de descanso, paz, sossego e calma!
E se isso, meu amigo, não bastasse,
jogassem, contra ele, uma bomba fantástica,
da maneira mais drástica,
como aquela que abateu Hiroshima
e, não, apenas, matou,
mas destruiu, desintegrou,
tornou aquela terra, dantes, tão povoada,
um vazio de vidas,
um deserto de nadas!
Tu ris? – Eu acabo de ver!
E tens razão de rir,
pois não chegaste a entender
o que eu quis te dizer!
E, então, como tu, eu também rio:
Ah! Ah! Ah!
Mas o meu riso é triste, é desolado,
é um riso nervoso, é um riso aparvalhado,
é um riso falso de tristeza e dor!
 
 
É um mecanismo. Entendes?
– De defesa!
É formação reativa
do meu estado interior!
Tu choras, amigo meu?
Choremos juntos, então.
Enfim, tu compreendeste
o que é desintegração!
Esse alguém, de triste fado,
que um dia,
há muito, nasceu!
Hoje, desintegrado,
ainda existe :
– Sou Eu!!!

 

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