Delcy Canalles

 

TROVAS

 

Quisera poder sorrir,
apesar da alma sofrida...
Não é fácil existir
sem alegria na vida!

 
Contemplo a noite sombria
que, a trevas, só se reduz
e, na minha fantasia,
vejo cascatas de luz!
 

Meu universo traduz
minhas angústias sem fim...
Sou como um cego sem luz,
perdido dentro de mim!
 

Mil promessas me fazias
e, incauta, eu acreditava,
pensando que me querias...
Meu Deus, como eu me enganava!
 

A criança que eu trazia
dentro de mim escondida,
hoje, vive na poesia,
chorando restos de vida!
 

Se a alma não envelhece
e se o amor não termina,
a minha esperança cresce
e a vida mais me fascina!
 

Minha alma convalescente,
que já cansou de sofrer,
quer viver intensamente,
quer amar e adolescer!
 

Vejo as letras do alfabeto
quais tijolos da cultura,
edificando, em concreto,
a nossa literatura!
 

Cavalgando a fantasia
eu sigo, em frente, risonho.
Ponho no céu da poesia
todo o luar do meu sonho!
 

Passei a vida esperando
um grande amor, mesmo assim,
senti a vida passando...
E ninguém perto de mim!
 

Esse amor que estou vivendo
é tão grande, tão sem fim,
que eu me sinto renascendo
com um céu dentro de mim!
 

Quando a lembrança me invade
a solidão, como agora,
cresce, no peito, a saudade
e a alma soluça e chora!
 

Ó velhice, eu que temia
que chegasses de repente,
vivo em tua companhia,
sem notar que estás presente!
 

Desfaz-se em trovas de amor,
e em versos cheios de encantos
o poeta-trovador
que canta seus próprios prantos!
 

Há penumbra no meu dia
sem o sol do teu calor,
pois minha vida vazia
anoitece sem amor!
 

Não me sinto envelhecida,
ao longo de tantos anos,
pois eu amo muito a vida,
apesar dos desenganos!
 

Eu amo o mundo, a criança,
a velhice, a mocidade!
Vivo a vida na esperança
de vencer a própria idade!
 

Ele chegou de mansinho,
foi via-computador,
e me trouxe o teu carinho,
e eu te dei o meu amor!
 

Que o ano que se inicia
seja um ano de fartura:
- Haja, nas mesas, poesia!
- Sobre, nos pratos, ternura!
 

Em meus sonhos de criança,
desejei pescar a lua,
e pus anzóis de esperança
nas poças d’água da rua!
 

O caminho que eu queria
trilhar com meus próprios passos,
era aquele da poesia,
levando as rimas nos braços!
 

Amanhecia lá fora
num quadro de encantamento:
O vento sorria à aurora,
que dava "bom -dia" ao vento!
 

Quando a manhã vem surgindo,
no horizonte e diz: bom-dia,
minha alma fica sorrindo
e se desdobra em poesia!
 

Sinto os dias mais risonhos,
pois te vi, como queria,
Buenos Aires dos meus sonhos,
dos tangos e da poesia!
 

Procura contar teus dias
só pelas horas douradas
e colherás alegrias,
em vez de nuvens pesadas!
 

No imenso "mar da ternura",
eu fiz pescarias novas:
Cheguei a pescar ventura,
com meu caniço de trovas!
 

"A vida parece um rio"
e eu adoro pescaria,
às vezes, até sorrio:
se jogo o anzol da poesia!
 

Cheguei tropeando a magia,
vim cavalgando a ilusão,
e "apeei" com galhardia,
nos campos do coração!
 

Este natal, eu queria
festejar de forma nova:
- A ceia...só de poesia!
A sobremesa...de trova!
 

Cem vezes, tu repetiste
que me amavas loucamente...
Cem vezes, tu me mentiste
e cem vezes eu fui crente!
 

Choro meus sonhos perdidos
e os meus desejos frustrados,
pelos anos mal vividos
entre amores fracassados!
 

Contra os males da existência,
a trova é o melhor remédio:
supre o vazio da ausência,
poetiza o próprio tédio.
 

Viver a vida das horas
em meio a rimas e versos,
é pressentir mil auroras
crepusculando universos!
 
Às vezes, a alma se cansa
de esperar...e desespera,
porém não perde a esperança
e volta à fase de espera!
 

Olhando o povo com fome,
fico triste e, às vezes, penso:
- como há gente que não come?
tendo um chão tão rico e imenso!
 

Pesam-me muito as lembranças
da minha vida vazia;
são horas sem esperanças,
são horas de nostalgia!
 

A jóia mais rica e pura,
a que tem maior valor,
se chama mãe ou ternura,
se chama Irene ou amor!
 

Na vastidão da tristeza,
que a tua ausência produz,
minha alma se encontra presa
num labirinto sem luz!
 

Quando estou só e a tristeza
vem tomar conta de mim,
leio um livro, na certeza,
de, nas mágoas, pôr um fim!
 

No mar da minha saudade,
eu navego noite e dia
vivendo a dualidade,
da tristeza e da alegria.
 

Apesar dos meus fracassos,
vivo um mundo de ilusão,
abraçando os próprios braços
pra enganar a solidão!
 

Apesar de tanta idade,
esta minha alma criança
procura a sua metade
e vive dessa esperança!
 

Ilusão, não vás embora,
não me deixes, por favor,
tu me devolves a aurora
no meu ocaso de amor!
 

O amor chegou de mansinho,
na minha vida e, agora,
o meu mundo é só carinho
e o meu poente é de aurora!
 

Às vezes, nos faz chorar
o coração que é sozinho,
que não tem a quem amar
porque é órfão de carinho!
 

É quase uma eternidade
o tempo, quando demoras,
pois esta minha ansiedade
retarda o passo das horas!
 

Ah, se eu pudesse, eu diria:
meu amor, hoje eu proponho,
ofertar-te esta poesia,
rever-te, ao menos, em sonho!
 

A idade não nos diz nada,
quando o amor chega até nós,
quando a pessoa é amada,
quando não estamos sós!
 

Desejo amar com loucura,
com o ardor da juventude,
para gozar a ventura
que, quando jovem, não pude!
 

Quero luzes de alvorada,
para viver a ventura
de amar e de ser amada,
de dar e ganhar ternura!
 

São frutos dos nossos sonhos,
e também da fantasia,
os devaneios tristonhos
que inspiram nossa poesia!
 

Sem amor, envelheci,
hoje é que vejo, sentida,
que em verdade eu não vivi,
pois sem amor, não há vida!
 

Há penumbra no meu dia
sem o sol do teu calor,
pois minha vida vazia
anoitece sem amor!
 

Numa profunda hipnose
podemos viver, suponho,
verdadeira simbiose
de realidade e sonho!
 

A manhã sorri contente,
ante a beleza da aurora
e tem pena do poente
que, à tardinha, triste, chora!
 

Tanto o amanhã, eu temia,
que o ontem, vendo-me, assim,
no teatro da ironia,
fez, hoje, um trapo de mim!
 

Nos rumos da estrada nova
no caminho a percorrer,
façamos trova e mais trova,
que a trova ajuda a viver!
 

Eu vejo Deus na magia
dos versos simples que teço
Deus é rima, amor, poesia,
é fim, é meio, é começo!
 

Beber sorrisos de aurora,
sentir tristezas de ocaso,
é transformar nosso agora
na beleza de um parnaso!
 

Vivo a esperar. nessa espera,
a minha alma não se cansa,
pois no meu céu de quimera
brilham luzes de esperança!


A natureza sorria,
ante as cores do arrebol!
Era a tarde que morria
nos braços quentes do Sol!


Porque a droga nos destrói,
a vida é melhor sem ela,
pois, se não mata, corrói,
e, sempre, deixa seqüela!


Procurando formas novas
para a recusa entender,
busco consolo nas trovas
e, então, me ponho a escrever!


A Sociedade, a Deus, roga
pelo bem da Juventude,
que afaste o uso da droga,
essa vilã da saúde!


Sem queixumes...sem revolta,
numa total sintonia,
com a paciência de escolta,
enfrento o meu dia-a-dia!


A natureza sorria,
ao ver o Sol tão bonito,
enviar-lhe o seu Bom-dia,
lá do alto do infinito!


A vida parece um rio
que corre em rumos diversos,
inspirando o meu vadio
destino de fazer versos!


Quem espera, desespera,
se a fria desesperança
rompe o portal da quimera
e os nossos sonhos alcança!


Um Hino à Vida, eu queria
poder, eu mesma fazer,
e, cantá-lo, todo o dia,
porque cantar é viver!


Quero entender a magia
do silêncio, que renova,
e afastar a nostalgia,
que chora na minha trova!


A rima mais rica e bela,
que cabe em todo poema,
é a rima do amor, aquela
que embeleza qualquer tema!


Pelos Mares da Lembrança,
tentei pescar a ventura,
pondo iscas de esperança
nos meus anzóis de ternura!


Chega o inverno e aumenta o frio,
que sinto dentro do peito!...
A solidão e o vazio
resistem, sós, no meu leito!


O vento ventava tanto,
que os verdes campos, varria,
e enxugava até o pranto,
que, dos meus olhos, caía!


No final da tarde quente,
uma ansiedade me invade,
quando a brisa, de repente,
traz respingos de saudade!


Tinhas razão de dizer,
naquele breve segundo,
que não sou teu bem-querer,
que não vivo no teu mundo!


Olhei a noite assustada
pela treva, que a envolvia,
e esperei a madrugada
p’ra ver nascer novo dia!


As trovas são um remédio
para os momentos tristonhos:
elas afastam o tédio
e alimentam nossos sonhos!


Sem o champanhe ideal,
nesta noite de abandono,
procuro, no meu Natal,
embriagar-me no sono!

 

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